A ruptura com o gozo fálico e suas incidências no uso contemporâneo das drogas

A ruptura com o gozo fálico e suas incidências no uso contemporâneo das drogas

This text is also available in: Espanhol

The break with the phallic jouissance and its implications for contemporary use of drugs

Lilany Pacheco (Belo Horizonte, Brasil)
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise( EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Coordenadora do Núcleo de Toxicomania do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais

Resumo: A resenha do livro de Jésus Santiago: “A droga do toxicômano: uma parceria cínica na era da ciência”, privilegiou a discussão efetuada pelo autor sobre a definição lacaniana da droga como o que permite romper o casamento com o falo e o lugar desta conceitualização no ensino de Lacan, de modo a esclarecer as incidências dessa afirmação para pensar o uso das drogas na contemporaneidade.
Palavras-chave: droga, toxicomania, gozo, ciência.
Abstract: The book review of Jésus Santiago’s: “The drug addict: a cynical partnership in the era of science”, focused the discussion made by the author of the lacanian definition of the drug as allowing to break the marriage with the phallus and the place of this conceptualization in Lacan’s teachings, in order to clarify the implications of this statement to think the use of drugs in contemporary times.
Keywords: drug, drug addiction, jouissance, science.

O encontro com o livro “A droga do toxicômano” se deu antes do lançamento da primeira edição, em 2001. Jésus Santiago me confiou, em 1994, a brochura com a tradução de sua tese realizada na Universidade Paris VIII, em Paris. A leitura desse trabalho de tese teve um efeito decisivo em minha formação psicanalítica, dada a sua inserção decidida na chamada “orientação lacaniana”, essa que, todos sabemos, é sustentada, desde o início dos anos 80, por Jacques-Alain Miller. Escrito no início dos anos 90, em sua primeira edição impressa, em 2001, o autor adverte ter feito modificações em função de seus avanços sobre o tema. O tempo transcorrido desde sua primeira edição permitiu que saudássemos o livro de Jésus Santiago pela primorosa revisão efetuada na obra de Freud, pós-freudianos e Lacan, da qual podemos extrair coordenadas inestimáveis para uma clínica psicanalítica das toxicomanias, a saber:

Para Lacan o fenômeno toxicomaníaco caracteriza-se pelo uso metódico e ordenado dos diversos produtos que materializam o efeito real da ciência sobre o corpo.

Assim sendo, o uso destas substâncias tóxicas torna-se objeto de uma hipótese que se inscreve no horizonte da chamada dimensão ética do gozo.

Abordar a toxicomania sob o ponto de vista ético do gozo do corpo leva, certamente, a concebê-la como um modo particular de satisfação, distinto da dependência biológica própria de toda concepção moral, repreensiva e biologicista em relação ao ato toxicômano.

Historicamente, as drogas passam a existir para responder ao que as velhas escolas de pensamento nunca evitaram como uma das próprias leis de sua reflexão ética: a questão do gozo do corpo.

Atualmente, a ciência fornece operadores químicos capazes de se constituir em reguladores da própria economia libidinal, cuja única finalidade é extrair satisfação no nível do corpo. Essa seria a técnica do corpo que poderia ser considerada como um mais-gozar especial, em razão do modo de captação dos excedentes do gozo gerado pelo uso da droga e as parcerias cínicas decorrentes, na contemporaneidade.

Circunscrever o fator econômico, ou a dimensão ética do gozo, presente na relação do sujeito com a droga adverte da recusa a toda concepção do ato toxicomaníaco baseada na problemática noção de dependência química, que se mantém restrita ao aspecto da repreensão ou da desintoxicação via abstinência das drogas, admitindo-se, portanto, a originalidade da psicanálise e as implicações do desejo do analista frente a toda e qualquer vontade de obturar o real pelas falsas ciências que são reclamadas para a orientação do tratamento do uso de drogas na contemporaneidade.

Enfim, dentre os pontos já destacados sobre o trabalho primoroso de investigação feito por Jésus Santiago em “A droga do toxicômano”, encontramos, de modo inédito, as coordenadas para a extração de uma abordagem clínica propriamente lacaniana da droga, cotejada com as proposições de Freud e dos pós freudianos que tentaram, sem êxito, situar a distinção entre o objeto droga e o objeto “genital”, recaindo sempre na hipótese da toxicomania como perversão.

Baseando-se nos escritos de Lacan sobre a Psicanálise e a Medicina, Jésus Santiago esclarece que “a questão clínica da droga expõe, justamente, o paradoxo da satisfação extraída de um objeto, cuja nocividade tóxica para o organismo a investigação científica limita-se a reiterar, de forma monótona e indefinida. Esse paradoxo consiste, pois, em que o sujeito não procura, forçosamente, um objeto que lhe traga o bem” (SANTIAGO, 2001, p. 147-153). Assim, há uma indiferença quanto ao objeto, porta aberta aos gadgets, tal qual explicitado na introdução ao capítulo IX, objetos prontos para gozar de forma muito particular, objetos que nem sempre possuem um efeito de substância agindo sobre o corpo, mas coincidindo com a indiferença quanto ao objeto e toda a vertente paradoxal da satisfação da pulsão e suas relações com o corpo.

A perspectiva de acompanhar os avanços sobre o tema se fará presente na nova edição de “A droga do toxicômano” tendo em vista o alcance e os atuais horizontes clínicos desenhados pelo ultimíssimo ensino de Lacan. Pretendo destacar, nesse momento, o trabalho realizado por Jésus Santiago no capítulo intitulado “Vontade de ser infiel ao gozo fálico”, no qual retoma a definição lacaniana da droga formulada na Seção de Encerramento da Jornada de Estudos dos Cartéis da Escola Freudiana (1975). Lacan faz uma articulação precisa sobre o uso da droga pelo sujeito. Localiza a angústia no momento em que o “pequeno bom homem” “apercebe-se de que está casado com o seu prolongamento” (pipi), “é o que se chama geralmente pênis ou pine, e que se infla ao se perceber que não há nada melhor para fazer falo”. Contudo – prossegue Lacan – “se há alguma coisa nas Cinco Psicanálises que é para nos mostrar a relação da angústia com a descoberta do pequeno pipi”, (…) «é porque eu falo de casamento que eu falo disso; tudo o que permite escapar a esse casamento é evidentemente bem vindo, de onde o êxito da droga, por exemplo; não há nenhuma outra definição da droga que esta; é o que permite romper o casamento com o pequeno-pipi.» (SANTIAGO, 2001, p.167 e segs)

A discussão exaustiva da definição lacaniana da droga – “é o que permite romper o casamento com o pequeno-pipi.” – promovida por esse autor, esclarece a distinção entre o gozo masturbatório e suas vias autoeróticas, a perversão e o gozo na toxicomania situando a pista de Lacan para a castração como gozo que libera necessariamente uma angústia. A metaforização do Desejo da Mãe pelo significante do Nome-do-pai e as formas da carência paterna que podem se apresentar nesta operação lógica situam a investigação sobre o fenômeno toxicomaníaco no terreno da conceitualização da falha, do buraco no gozo fálico, introduzida por Lacan no curso de sua investigação sobre as psicoses. “Essa conceitualização sobre a exclusão da ordem fálica nas psicoses é, inicialmente, formalizada pelo matema phi-zero [Fo]; e, para a falha na simbolização do Nome-do-pai, Lacan propõe a notação [Po].” (SANTIAGO, 2001, p. 176). O trabalho rigoroso de investigação de Jésus Santiago nos conduz pela mão até o cerne das interrogações lacanianas das diversas condições nas quais um termo implicaria necessariamente o outro e, em especial, as possibilidades de ocorrer ruptura com o gozo fálico sem que haja foraclusão do Nome-do-Pai. Campo aberto à investigação, uma vez que, como analistas, estamos diante dos mais genuínos fenômenos da prática da droga em nossos dias.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LACAN, J. IV Jornadas de Estudos dos Cartéis da Escola Freudiana/Sessão de Encerramento. Publicada neste número de Pharmakon Digital.
SANTIAGO, J. A droga do toxicômano: uma parceria cínica na era da ciência. Rio de Janeiro: Zahar, 2001 (Campo Freudiano do Brasil).
Lilany Pacheco
Next Post Previous Post