Algumas reflexões sobre os métodos em voga para curar as adições

Algumas reflexões sobre os métodos em voga para curar as adições

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Some reflections about the methods in vogue to heal addictions

Pierre Sidon (Paris, França)[1]

“We admitted we were powerless over alcohol – that our lives had become unmanageable.”

Alcoholic Anonymous Big Book, Step One.


Resumo: O texto fala de um método para curar adições, a “Rational Emotive Behavioral Therapy”, que critica o método proposto pelos Anônimos. A psicanálise opera distintamente do tratamento pelo grupo e da reabsorção do singular no universal. Ela permite que um ego ferido assuma sua responsabilidade.
Palavras-chave: Adições, anônimos, terapia comportamental, psicanálise.
Abstract: The text talks about a method for healing addictions, the “Rational Emotive Behavioral Therapy”, which criticizes the method proposed by the Anonymous. Psychoanalysis operates differently from the treatment by the group and the reabsorption of the singular in the universal. It allows an injured ego to assume his responsibility.
Keywords: Addictions, anonymous, behavioral therapy, psychoanalysis.

Recomendado essa manhã, 25 de abril de 2015, por Stanton Peele no Twiter, o site The humanist.com (http://thehumanist.com/magazine/may-june-2015/features/self-management-recovery-training-a-smart-humanistic-approach-to-addiction-recovery) publicou um artigo de Deborah June Goemans a propósito de um método em voga para curar a adição.

Inspirado por S. Peele, psicólogo promotor da adição ao amor (http://addicta.org/2014/09/29/love-addicts-amour-ou-anti-amour/), o artigo destaca uma de suas afirmações mais fortes: “o melhor antídoto ao vício são a alegria e capacidade”.

Mas o que anuncia esse destaque na abertura do jogo, e que é o fundamento do método aqui apresentado, é o famoso ataque contra os Anônimos de que S. Peele se tornou, de longa data, uma das figuras de proa. Pois o método denominado smart-Recovery, pretende atingir o contrapé dos princípios do método dos Anônimos. A crítica de S. Peele, de fato, coloca em causa o célebre método dos doze passos do célebre Bill em seu princípio fundador: o reconhecimento necessário, pelo adepto, de sua fraqueza contra uma doença considerada incurável. É esse apelo ao fracasso que, de acordo com S. Peele, constitui uma das falhas ou mesmo um dos perigos essenciais do método dos Anônimos, uma vez que podem conduzir a uma “dependência permanente das pessoas”, à cronificação no grupo dos Anônimos: “resta ainda ao alcóolico a tarefa crucial de sair para fora do grupo AA para colocar à prova seus novos sentimentos de valor e de controle de si mesmo”. Para S. Peel, de fato, aquele que se submete ao “poder superior” dos AA está preso em um sistema do qual o “clero médico”, seria cúmplice (Peele S., Love and addiction, Taplinger Publishing, New York, 1975. (Cap. 9).

D.J. Goemans se baseia também na existência de estudos que demonstram a baixa eficácia do método dos Anônimos entre todos os métodos conhecidos. Mas reconhece que esse caminho, embora de natureza espiritual, pode atender alguns. No entanto, chama a atenção, com S. Peele, do risco da “profecia autorrealizadora”, incluída no princípio da impotência exigido pelos Anônimos. Trata-se do primeiro ponto, e não dos menores, sobre o qual repousa o método smart: vocês não são impotentes. A palavra vítima (da doença enviada por Deus) não é pronunciada, mas se deduz.

Em vez disso, os defensores do método smart propõem um programa de ação racional e pragmática. E, claro, todos alegremente viram as costas a qualquer conceito patológico e se localizam inteiramente – estamos nos EUA – sob a égide da psicologia positiva impulsionada e baseada em um precursor das TCCs: a Rational Emotive Behavioral Therapy (REBT ), fundada em 1955 por Albert Ellis. Quatro de seus princípios impulsionam o método smart: aumentar a motivação para a mudança, gerir as vontades, se ocupar efetivamente dos seus assuntos e fazê-lo “racionalmente” e, finalmente, equilibrar a balança entre o prazer imediato versus a satisfação a longo prazo.

Evidentemente se os interrogará, à luz negra das seduções diabólicas da infelicidade revelada nos tratamentos psicanalíticos individuais, sobre a significação não encontrável de vários dos quatro objetivos assim propostos, como à prática baseada em grupos ou sobre o uso de um site da Internet.

Mas o dispositivo, fundado em 1994, seduz: mil e quatrocentas reuniões a cada semana em seis continentes, cento e vinte mil visitas mensais ao site. Ele ganha então interesse como um instrumento pronto para uso. Seria, talvez, um primeiro passo para começar a superar as designações arrazadoras que estão na origem das adições? É certamente o que acredita o artigo de The Humanist por meio de vários testemunhos clínicos comoventes.

Então, é claro, a variedade da oferta vai permitir a cada fazer suas compras no mercado liberal de terapias e fazer o caminho de um desabrochar pessoal. Mas resta o sentimento de um impasse do humanismo nesse maniqueismo de vítimas-Anônimos, opostas aos empreendedores do self. É que o tratamento pelo grupo e a absorção da singularidade em um universal do bem preconizada pela psicologia positiva reenvia o sujeito que sofre à opacidade de seu gozo. Esse ”humanismo ingênuo”, que “é pretender que Outro seja semelhante (…) se desorienta completamente quando o real no Outro se manifesta como não semelhante em absoluto. Há, então, sublevação. Então surge o escândalo. Não se tem outro recurso senão invocar não sei que irracionalidade”, nos ensina Jacques-Alain Miller (Miller J.-A., “Extimidad, Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 46). Ao contrário, diz Miller, comentando Heidegger: “(…) há primeiro algo dado, mas a ninguem. (…) E depois tenta-se arranjar-se com isso (Ibid, p.337).” E é desse ponto situado como impasse do humanismo que se origina a via estreita sobre o caminho íngreme de uma realização singular, em direção ao “há”: aquele que permite o apoio assegurado sobre um psicanalista no advento de um ego ferido em direção à assunção de sua responsabilidade. Cabe a nós fazer valer nosso método e crescer nossa oferta nesse sentido.


Tradução: Jorge Pimenta
Revisão: Márcia Mezêncio

[1] Psiquiatra, psicanalista, Membro da Ecole de la Cause Freudienne e da Associação Mundial de Psicanálise, animador da rede TyA do Campo Freudiano.
Pierre Sidon
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