Sexo, Drogas e Rock’n Roll no Século XXI

Sexo, Drogas e Rock’n Roll no Século XXI

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Sex, Drugs and Rock’n Roll in the XXI Century

Felipe Barreto Nery Coutinho[1] (Juiz de fora, Brasil)

Resumo: O mal-estar, efeito da desordem no real, encontra nas adições generalizadas uma resposta, um gozo que segue as determinações do imperativo contemporâneo do consumo e que traz consequências características observadas pela clínica psicanalítica.
Palavras-Chave: gozo, toxicomania, adição, desordem, droga.
Abstract: The malaise, an effect of the disorder in the real, finds answers in generalized addictions, an enjoyment that follows the determinations of the contemporary imperative of consumption and that brings consequential characteristics observed by psychoanalytic clinic.
Keywords: jouissance, drug addiction, disorder, drug.

O Iluminismo põe fim às barbáries da Idade Média, introduzindo a ciência enquanto orientação outrora exercida pelos pressupostos religiosos. Isaac Newton descreve o mundo segundo as leis da física; inaugura-se a ciência moderna. Constroem-se máquinas que subvertem as expectativas de produção. Novas relações de mercado e de trabalho são constituídas. Novas áreas da ciência são nomeadas. O sistema do capital solidifica-se. Ergue-se a Pharmakologia que, do encontro com a indústria bioquímica, alcança as drogas.

A empreitada da formalização de um saber sobre a verdade deixa um resto. Há sintoma, “verdade que retorna, portanto, a galope” [2]. Há queda de sentido, dos ideais. O discurso capitalista deixa mudo o consumidor, sem palavras em seu gozo. Não há retorno. A universalidade da entropia (ΔS=Q/T) determina um rumo, uma tendência à desordem de maneira irreversível. A junção sexo, drogas e rock’n roll está desfeita, desordenada, reconfigurada segundo uma “metástase de gozo”[3], contemporâneo, em um paraíso ainda mais artificial.

O momento atual caracteriza-se por uma suposta solução frente ao mal-estar, algo que se dá pela via de uma adição generalizada, que se manifesta diante dos tropeços e embaraços do sujeito neurótico, mas também no recurso à intoxicação enquanto mecanismo frente à angústia característica na psicose, como no caso clínico.

O jovem chega ao tratamento analítico anunciando-se dependente químico crônico de álcool, mas, sobretudo, de cocaína. O paciente diz-se amante do rock desde a adolescência, fase de sua vida na qual já bebia compulsivamente. Segundo ele, seus heróis morreram de overdose, algo que afirma fazendo alusão à sua identificação com a imagem fálica (φ) do rock star, como ficou conhecido na faculdade, desregrado em seu gozo com as drogas e assediado por groupies. O rapaz é bem apessoado, praticante de exercício físico intenso, ex-vendedor de suplementos alimentares, tem grande preocupação com a aparência e já fez uso cíclico de anabolizantes.

O histórico familiar do jovem conta com crises depressivas da mãe, que o criou longe do pai desde o seu nascimento. O rapaz não carrega o sobrenome paterno. Ao final da puberdade, ele encontra o pai pela primeira vez, momento em que inicia um namoro e também o uso da cocaína. O gozo com a droga é rapidamente incorporado à vida do paciente que o qualifica atualmente como um remédio para sua doença, que o faz sofrer.

É possível interrogar a clínica analítica do sujeito toxicômano segundo a lógica discursiva contemporânea, cujos efeitos são experimentados através de uma adição generalizada. Trata-se de um questionamento no qual se concebe certa falência da função paterna. Com efeito, a angústia pode atingir o corpo e o devastar segundo um gozo fora do simbólico.

O paciente recorre à toxicomania enquanto mecanismo que situa o seu gozo. A angústia diante da ausência do pai, do representante fálico (Φ), atravessa seu corpo e o faz eleger objetos substitutos (φ) pela via imaginária. Da figura do rock star ao dependente químico crônico, ele encontra amparo através da identificação, que promove certa amarração dos registros suprindo a ausência do significante fálico. Em jogo, está um sintoma que pretende dar conta do que há de insuportável no real pelo recurso ao imaginário, o que a princípio não passava pela ordem simbólica. Ao falar, o jovem encontra rastros de sentido. O gozo, inicialmente mudo, representado em ato de intoxicação, encontra a palavra e assume o enigma diante do amor do pai, abrindo as portas para uma possível père-version, certa versão em direção ao pai [4].

Para além da peculiaridade do caso, é possível perguntar se a civilização atual não se caracteriza, simultaneamente, por uma desordem no real, mas também por uma inflação do imaginário, experimentada pela desregulação crescente e generalizada do gozo com relação ao seu objeto-causa (a). Isso significaria supor que o ordenamento do consumo e as metamorfoses contínuas dos objetos desregulam a economia libidinal do sujeito contemporâneo, o que se vivencia enquanto perda crescente de sentido e aumento progressivo da angústia. O imperativo do consumo suportado pela ciência traduz-se, portanto, na dificuldade do sujeito em localizar o seu gozo. Trata-se ainda de interrogar se as adições generalizadas respondem em determinada equivalência com a toxicomania levada à sua dimensão de excesso, a saber, o da identificação do corpo como dejeto.

A falência paterna atual confundir-se-ia com a nulidade simbólica do nome-do-pai? Ou é um enfraquecimento da significação fálica e da incidência da castração que, com efeito, promove uma diminuição da perda da parte autista do gozo? Isso incide diretamente no endereçamento ao parceiro sexual e na maneira como os sintomas arranjam-se promovendo parcerias. A desordem crescente da sexuação no real do século XXI[5] implica em ausência da diferença entre os sexos? É possível pressupor um gozo irrestrito e generalizado a ponto de devastar igualmente o parlêtre independente do real do sexo que marca o seu corpo? Quais os efeitos disso para a clínica com as toxicomanias ou com as adições generalizadas?

Do paz e amor dos hippies à política de repressão sustentada pelo significante de guerra às drogas, os ideais que, outrora, figuraram situando o gozo, fracassaram. A tríade sexo, drogas e rock’n roll apontava uma saída para o mal-estar de um século marcado pela devastação decorrente dos grandes embates mundiais, de acordo com uma lógica fálica ainda bem definida. Em resposta, assistiu-se a um boom cultural da cena rock. Em jogo, um contorno simbólico que, ao som de pedras rolando, constituía parceiros; homens recusavam-se a ir à guerra e mulheres reivindicavam direitos.

O jovem é de um tempo em que o imperativo do consumo pode calar o parlêtre que, aprisionado na dimensão autista de seu gozo, recorre ao paraíso artificial dos objetos para satisfazê-lo. No entanto, o que daí retorna é vivido no corpo (angústia) e, mais ainda, na contínua formação de sintomas que denunciam certa desordem no real pela via da desorientação sexual e da precariedade simbólica. O paciente é representante de um século no qual a junção do sexo, das drogas e do rock’n roll sofreu reconfiguração, desfez-se, perdeu sentido e só se sustenta por uma inflação do imaginário diante do real. A era recém inaugurada é marcada pela metástase do gozo, o que resulta em uma desordem do sexo, num gozo autista com as drogas e num silencioso rock’n roll.


Bibliografia:
LACAN, Jacques, (1969-70), O Seminário, Livro XVII, O avesso da psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992.
______________. (1975-76), O Seminário, Livro XXIII, O sinthoma, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2007.
MILLER, Jacques-Alain (2012) « Le réel au XXI siècle » Présentation du thème du IX Congrès de l’AMP : La Cause du Désir, v. 82, Paris, 2012.

[1] Mestre em Psicanálise pela Université Paris 8 (Vincennes-Saint-Dennis); profissional atuante em Juiz de Fora (MG).
[2] LACAN, J. “O Seminário, Livro XVII: o avesso da psicanálise”, 1969-70, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992, p. 59.
[3] Termo utilizado por Fabián Naparstek, por ocasião do I Encontro da Rede TyA -Brasil, Belo Horizonte, 2014.
[4] LACAN, J., “O Seminário, Livro XXIII: o sinthoma”, 1975-1976. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007, p.21.
[5] MILLER, J.-A. « Le réel au XXI siècle », 2012, Présentation du thème du IX Congrès de l’AMP, La Cause du Désir, v.82, p.94.
Felipe Barreto
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