{"id":3498,"date":"2026-01-15T09:35:22","date_gmt":"2026-01-15T09:35:22","guid":{"rendered":"https:\/\/pharmakondigital.com\/?p=3498"},"modified":"2026-01-15T09:35:22","modified_gmt":"2026-01-15T09:35:22","slug":"instituicoes-intoxicantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pharmakondigital.com\/es\/instituicoes-intoxicantes\/","title":{"rendered":"Institui\u00e7\u00f5es Intoxicantes"},"content":{"rendered":"<p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>N\u00e3o podemos negar um contraponto. Existe. Ao situarmos a penaliza\u00e7\u00e3o do adicto, como consumidor de subst\u00e2ncias ilegais, em um extremo. Em outro, um empuxe \u00e0 libera\u00e7\u00e3o do consumo. Essa disson\u00e2ncia tenta deixar por fora uma op\u00e7\u00e3o, que a psican\u00e1lise e em particular os psicanalistas lacanianos resgatamos desse atordoamento. Em tempo de imagens que intoxicam tamb\u00e9m as institui\u00e7\u00f5es o podem fazer. A pessoa \u00e9 tomada, com efeito, por um outro que molesta. O analista est\u00e1 ali para insistir pela palavra. N\u00e3o trope\u00e7ar na extra\u00e7\u00e3o sempre de um significante a mais. Como diz Miller, analisar o\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>\u00a0\u00e9 o que j\u00e1 fazemos, por\u00e9m temos que aprender a saber dize-lo. Tamb\u00e9m, referente a quem habita o sil\u00eancio das drogas&#8230;<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>institui\u00e7\u00f5es, intoxicantes, drogas, posi\u00e7\u00e3o do analista frente \u00e0s drogas,\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, aturdimento.<\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>We can not deny there is a counterpoint. On one hand we place the penalization of the addict, as a consumer of illegal substances. On the other hand, a push to free oneself from the addiction. This dissonance attempts to leave out a third option, that psychoanalysis, and lacanian psychoanalysts in particular, rescue from the daze. In times of intoxicating images, also institutions can amount to the same effect. The person is taken, in fact, by the other who harasses him.<br \/>\nThe analyst is there to insist through words, not to falter in the perpetual extraction of one more signifier. As Miller once said: to analyze the\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, that&#8217;s what we already do, but we must learn how to say it. Also in relation to them who inhabit the silence of drugs&#8230;<br \/>\n<strong>Keywords:<\/strong>\u00a0: institutions, intoxicating, drugs, psychoanalyst&#8217;s position in relation to drugs,\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, daze.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3499\" aria-describedby=\"caption-attachment-3499\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3499\" src=\"https:\/\/pharmakondigital.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martin_fuster.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/pharmakondigital.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martin_fuster.jpg 200w, https:\/\/pharmakondigital.com\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/martin_fuster-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3499\" class=\"wp-caption-text\">Martin Sebastian Fuster<\/figcaption><\/figure>\n<p>No sil\u00eancio pr\u00e9vio do consult\u00f3rio,<br \/>\nesse pre\u00e2mbulo compreendido de cada sess\u00e3o,<br \/>\ndescansa \u00e0 espera do desejo do analista,<br \/>\nessa perturba\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria<br \/>\npara acessar o que n\u00e3o sabe que sabe o sujeito<br \/>\nM.F.<\/p>\n<p>As palavras, aqueles significantes. Uma palavra no in\u00edcio me impele a escrever, impulsiona meu relato. A sess\u00e3o anal\u00edtica, aquela que persiste como aposta do psicanalista na emerg\u00eancia do\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>\u00a0inclui o sujeito toxic\u00f4mano. Estes anos de trabalho em diferentes institui\u00e7\u00f5es convocadas a \u00abassistir \u00e0 problem\u00e1tica das drogas\u00bb me permitiram a tentativa de expor (como em uma tela) a experi\u00eancia do trabalho com sujeitos desorientados, perdidos no gozo autista do consumo, a partir de uma orienta\u00e7\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p>O sofrimento que procura ser acalmado, baseado na restri\u00e7\u00e3o e a tentativa de pr\u00e1ticas fracassadas para domesticar a puls\u00e3o, somados a medidas coercivas de aniquilamento subjetivo, em um particular e danoso uso e abuso da subjetividade, muitas vezes associada aos campos de concentra\u00e7\u00e3o, revelavam, em nome da sa\u00fade, uma op\u00e7\u00e3o de tratamento de acordo com as chamadas \u00abvidas comunit\u00e1rias\u00bb, nas \u00abcomunidades terap\u00eauticas\u00bb.<\/p>\n<p>Os testemunhos dos sujeitos consumidores chamados de \u00abdoentes\u00bb e \u00abadictos manipuladores\u00bb, muitos deles abandonados para espiar suas culpas diante do gozo de quem se erige como Outro absoluto, \u00a0relatam que devido a repetidas reca\u00eddas s\u00e3o obrigados a cavar po\u00e7os e limpar paredes com escovas de dente desgastadas. Deste modo se sanciona o gozo exigindo-lhes cortar o pasto com tesouras, as mesmas que s\u00e3o usadas por crian\u00e7as em idade escolar.<\/p>\n<p>Isso justifica e justificava, para os que promovem e promoviam um tratamento do consumo de subst\u00e2ncias, os atos que penalizam a atividade do consumo naqueles que est\u00e3o tomados pelo gozo do t\u00f3xico em uma \u00e9poca que motiva e impulsiona a isso, ao consumo. A modernidade l\u00edquida costuma n\u00e3o dar tr\u00e9gua, e os sujeitos toxic\u00f4manos nos mostram que esse modo descarnado de fazer com o real, de ser mortificados pelo Outro (n\u00e3o apenas pelo supereu), pelas \u00abinstitui\u00e7\u00f5es do bem\u00bb que mandam abandonar as pr\u00e1ticas de gozo sob o imperativo \u00abdeixar de consumir\u00bb. Segundo Eric Laurent, mostrando ambas as faces do supereu, a que pro\u00edbe, mas que ao mesmo tempo instiga a gozar. N\u00e3o h\u00e1 perguntas, mas certezas.<\/p>\n<p>A inefic\u00e1cia destas pr\u00e1ticas \u00e9 constatada pelo baixo \u00edndice de recupera\u00e7\u00e3o que essas institui\u00e7\u00f5es promovem. Elas se valem da circunst\u00e2ncia moment\u00e2nea e cosm\u00e9tica de tranq\u00fcilizar fam\u00edlias desorientadas e pacientes desesperados e promovem a restri\u00e7\u00e3o, chamada de interna\u00e7\u00e3o, daquele que ao n\u00e3o ser escutado no sentido do seu sem sentido \u00e9 abandonado mais uma vez ao outro institucional que o isola sob a presun\u00e7\u00e3o de recuperar um sujeito social. Ao longo destes 20 anos de cria\u00e7\u00e3o do departamento de toxicomanias e alcoolismo da Escola de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, a psican\u00e1lise tem muito para dizer a respeito.<\/p>\n<p>H\u00e1 um encontro com o sil\u00eancio, o profundo sil\u00eancio que encarna o consumo. Direi o rep\u00fadio \u00e0quilo que possa inscrever-se como um dizer verdadeiro.<\/p>\n<p>Diante da toxicomania o habitual \u00e9 retroceder e, a resposta que se costuma dar \u00e9 a rigidez de quem oportunamente recebe o sofrimento de quem se aproxima. A fam\u00edlia diante da calamidade, diante daquele familiar que se tornou estranho, segundo Sigmund Freud, necessita \u2013 ao modo m\u00e9dico \u2013 extirpar o tumor. Salv\u00e1-lo, devolv\u00ea-lo \u00e0 vida, recuper\u00e1-lo. O paciente, espectador do que promove e escravo daquilo que promete, demanda e jura diante do mestre de plant\u00e3o que escuta. Posi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel para um analista, favor\u00e1vel para as institui\u00e7\u00f5es que justificam o encarceramento de quem padece.<\/p>\n<p>Uma vez, escutei de um analisante analista que trabalha em uma comunidade terap\u00eautica, que frente a \u00a0um adicto com \u00abvontade de consumir\u00bb costumava-se apelar \u00e0s pr\u00e1ticas f\u00edsicas, como faz\u00ea-lo cavar um po\u00e7o que o coubesse dentro. Mas, se mesmo assim n\u00e3o conseguisse reduzir seu impulso de consumo, bastava tranc\u00e1-lo em um \u00abquarto acolchoado\u00bb, chamado de \u00abquarto de conten\u00e7\u00e3o\u00bb, onde poderia permanecer por v\u00e1rias horas ou mesmo uma noite. O profissional terminou seu relato informando que ao sair o paciente dizia ter ainda mais vontade de consumir, al\u00e9m de sentir-se ressentido com os respons\u00e1veis que o levaram para o \u00abquarto acolchoado\u00bb.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 importante falar da necessidade de um trabalho e uma posi\u00e7\u00e3o d\u00f3cil por parte do analista. Docilidade diante de quem consulta sem deixar de considerar que quem o faz est\u00e1 aferrado \u00e0 sua modalidade de gozo. Ele entesoura um modo de velar o real que procura desconhecer a rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe. Ser fiel ao recha\u00e7o daquilo que n\u00e3o funciona. Buscar nisso as mais variadas estrat\u00e9gias para fazer saber da sua posi\u00e7\u00e3o e do seu encapsulado sofrimento, que ao modo freudiano diremos que sofre, mas ao mesmo tempo, n\u00e3o pretende abandonar t\u00e3o facilmente esse padecimento.<\/p>\n<p>Estes anos me permitiram encontrar e associar a docilidade do trabalho com adi\u00e7\u00f5es a semelhan\u00e7as encontradas no trabalho com crian\u00e7as. A cl\u00ednica infantil suporta as conseq\u00fc\u00eancias de um lapso permanente em busca dessa espera que apazigue e tamb\u00e9m oriente o analista, acompanhando o encontro com o saber n\u00e3o sabido pela crian\u00e7a que joga. \u00a0A expectativa da conting\u00eancia que costuma conduzir o sujeito \u00e0 sorte do seu futuro.<\/p>\n<p>Quando a docilidade acontece, quem chega o faz atrav\u00e9s da constata\u00e7\u00e3o de que aquilo que est\u00e1 sendo gerado \u00e9 um encontro. N\u00e3o h\u00e1 nada mais valioso do que o reencontro com a palavra v\u00e1lida e verdadeira promovida pelo la\u00e7o com o analista. Este est\u00e1 disposto a perturbar o casamento com o t\u00f3xico &#8211; fugindo dos confrontos do supereu que concluem a promessa de um percurso \u2013, no qual o sujeito se encontra atr\u00e1s da subst\u00e2ncia para ser encontrado.<\/p>\n<p>A docilidade (amiga do acolhimento c\u00e1lido) exige um valor m\u00fatuo, de ambos. Um compromisso e um baluarte a recuperar, o valor de um dizer e sua signific\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o Lenita Bentes<br \/>\nRevis\u00e3o: Oscar Reymundo<\/em><\/strong><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<div id=\"ftn1\">\n<h6><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>1<\/sup>\u00a0<\/a>Psicanalista. Presidente da Funda\u00e7\u00e3o O\u00a0 Sinthoma. Integrante do Departamento de TyA EOL.<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo:\u00a0N\u00e3o podemos negar um contraponto. Existe. Ao situarmos a penaliza\u00e7\u00e3o do adicto, como consumidor de subst\u00e2ncias ilegais, em um extremo. Em outro, um empuxe \u00e0 libera\u00e7\u00e3o do consumo. Essa disson\u00e2ncia tenta deixar por fora uma op\u00e7\u00e3o, que a psican\u00e1lise e em particular os psicanalistas lacanianos resgatamos desse atordoamento. 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