{"id":258,"date":"2026-01-14T00:14:27","date_gmt":"2026-01-14T00:14:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pharmakondigital.com\/o-x-analitico\/"},"modified":"2026-01-14T00:14:27","modified_gmt":"2026-01-14T00:14:27","slug":"o-x-analitico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pharmakondigital.com\/fr\/o-x-analitico\/","title":{"rendered":"O x anal\u00edtico"},"content":{"rendered":"<h6>Sobre <em>Adixiones<\/em> de Ernesto Sinatra<\/h6>\n<h6>Giovanna Quaglia (Bras\u00edlia, Brasil)<\/h6>\n<p><em>\u201c<\/em>Vivo drogada, mas n\u00e3o consumo, sou assim, n\u00e3o posso parar nunca&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. \u00c9 com essa frase que Sinatra nos introduz ao seu livro <em>Adixiones<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup><strong>[2]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>, com um <em>x<\/em>. Esse <em>x <\/em>que parece um lapso, nos antecipa a dimens\u00e3o do enigma, consubstancial \u00e0 experi\u00eancia anal\u00edtica desde as suas origens, indicando que na contemporaneidade \u00e9 poss\u00edvel viver drogado, inclusive sem drogas. \u201cAlcan\u00e7ar em seu horizonte a subjetividade de sua \u00e9poca\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, esse \u00e9 o convite de <em>Adixiones.<\/em><\/p>\n<p>Em \u00e1lgebra, a letra <em>x<\/em> \u00e9 usada para representar inc\u00f3gnitas, quantidades desconhecidas ou uma vari\u00e1vel. Em <em>Adixiones<\/em>, Sinatra faz desse <em>x<\/em> as varia\u00e7\u00f5es do \u201cn\u00e3o posso parar\u201d. O <em>x<\/em> comp\u00f5e a dimens\u00e3o instigante e original do termo <em>adixiones<\/em>, \u201cuma vers\u00e3o p\u00f3s-moderna da toxicomania generalizada\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> e nos convoca a refletir sobre o fato de que n\u00e3o existe uma \u00fanica forma de um sujeito intoxicar-se. Esse <em>x<\/em> vem cifrar o princ\u00edpio da toxidade do gozo como tal, mais al\u00e9m do objeto eleito.<\/p>\n<p>Como nos indicou Miller, \u201cse nos interessamos hoje pela toxicomania (&#8230;) \u00e9 porque ela traduz maravilhosamente a solid\u00e3o de cada um com seu parceiro mais de gozar\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Se o ser falante nunca pode estar sem um parceiro, \u00e9 a partir da cl\u00ednica das toxicomanias que a Rede TyA<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> vem investigando o la\u00e7o <em>mais al\u00e9m do principio de prazer<\/em> que une sujeito &#8211; objeto. O paradigma que as toxicomanias nos lan\u00e7am est\u00e1 nesse al\u00e9m das drogas, que se imp\u00f5e na contemporaneidade, essa incans\u00e1vel procura por esse <em>mais<\/em> de prazer que \u201ccome\u00e7a com as c\u00f3cegas e termina com a labareda\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir da investiga\u00e7\u00e3o da toxicomania, da banaliza\u00e7\u00e3o do uso do termo <em>adicciones<\/em>, da tese da toxicomania generalizada, que constatamos que na p\u00f3s-modernidade tudo ou qualquer coisa pode tornar-se t\u00f3xico. Assistimos a uma implos\u00e3o de toxidade impulsionada pelo imperativo do mercado e dos objetos de consumo: medicamentos, celular, jogos, s\u00e9ries, roupa, comida, sexo, fotos&#8230; at\u00e9 pessoas! Tudo pode ser t\u00f3xico.<\/p>\n<p>Para analisar essa proposta da toxidade contempor\u00e2nea, Sinatra interroga a cria\u00e7\u00e3o do termo \u201cpessoas t\u00f3xicas\u201d, indicando-nos que a refer\u00eancia \u201c\u00e0 toxicidade de algu\u00e9m induz uma pr\u00e1tica segregativa baseada numa concep\u00e7\u00e3o paranoica do mundo\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>. Pois identificar uma pessoa com uma droga, n\u00e3o s\u00f3 a segrega pela nomea\u00e7\u00e3o: t\u00f3xica como droga; como tamb\u00e9m, \u201ca condi\u00e7\u00e3o de recha\u00e7o implica situ\u00e1-la como a causa do mal: o Outro \u00e9 mau\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> e temos que afast\u00e1-lo. \u201cSe ele \u00e9 t\u00f3xico, eu sou inocente\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> e confirmo minha posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima desse Outro mau.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dessa perspectiva de ser uma v\u00edtima do Outro mau, a psican\u00e1lise oferece a possibilidade de interrogar a aliena\u00e7\u00e3o de cada um aos objetos com os quais se intoxicou. O <em>x<\/em> da quest\u00e3o da cl\u00ednica anal\u00edtica \u00e9 que notamos que t\u00f3xico \u00e9 o gozo, recaindo nas <em>adixiones <\/em>o fundamento \u00e9tico da responsabilidade de cada sujeito sobre seus atos. Esse <em>x<\/em> de <em>adixiones<\/em> \u201cmostra a marca singular do obscuro gozo sinthom\u00e1tico de cada um\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, tudo pode <em>adixionar-se<\/em> ao gozo.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das classifica\u00e7\u00f5es dos manuais de psiquiatria, das varia\u00e7\u00f5es p\u00f3s-modernas do mal-estar e da banaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo com a oferta de objetos, nas <em>adixiones<\/em> o gozo singular resiste, insiste e se repete. Situamos o sujeito na busca por prazeres em sua face sem-limites, uma maneira incans\u00e1vel de ser (in)satisfeito, o que temos \u00e9 um tonel das Danaides<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, \u201cem que o Nome-do-Pai p\u00f5e o gozo num tonel e este sai pelos furos do tonel\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>, nunca se esgota. \u201cN\u00e3o posso parar (&#8230;) n\u00e3o quero parar&#8230;.\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Valendo-se do operador cl\u00ednico \u201cfun\u00e7\u00e3o do t\u00f3xico\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>, \u00e9 poss\u00edvel localizar o uso singular que determina a elei\u00e7\u00e3o de um objeto. A fun\u00e7\u00e3o do t\u00f3xico reside na capacidade de articular o universal com o singular. Em termos gerais, a fun\u00e7\u00e3o traduz uma rela\u00e7\u00e3o entre uma vari\u00e1vel dependente &#8211; possibilidades universais que um determinado objeto de consumo pode oferecer &#8211; e outra vari\u00e1vel independente &#8211; o modo singular de satisfa\u00e7\u00e3o de cada ser falante. Portanto, essa fun\u00e7\u00e3o intoxicante designa a forma como um objeto \u00e9 inserido na economia singular do gozo de cada sujeito.<\/p>\n<p>O convite que nos faz Sinatra \u00e9 analisar como se fabrica um objeto t\u00f3xico, que em uma l\u00f3gica perversa procura manter o sem limite da (in)satisfa\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m viva a pr\u00f3pria toxidade do gozo das <em>adixiones<\/em>, um modo de gozo que faz esse objeto advir no lugar do imposs\u00edvel do gozo da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Se hoje temos as queixas pertinentes aos desfocados, desorientados pelo excesso de imagens, informa\u00e7\u00f5es, objetos&#8230; perdidos no m\u00faltiplo; uma an\u00e1lise impele a que, face ao generalizado, algo singular seja localizado. Esse <em>x<\/em> de <em>adixiones<\/em> destaca o aspecto singular daquilo que se repete do lado do excesso.<\/p>\n<p>Passando pela cl\u00ednica, pol\u00edtica e episteme, em uma escrita questionadora, Sinatra possibilita que a cada p\u00e1gina possamos refletir sobre como as <em>adixiones<\/em> s\u00e3o um modo de nomear a modalidade de gozo, man\u00edaco e solid\u00e1rio \u00e0 caracter\u00edstica paradigm\u00e1tica da contemporaneidade com sua velocidade, fugacidade e aus\u00eancia de sentido. Em um mundo em que a resposta instant\u00e2nea \u00e0 sociedade especular \u00e9 o <em>acting out<\/em> ou a passagem ao ato, subtrai-se o tempo de compreender atrelando-se o ver ao concluir.<\/p>\n<p>Desse modo o livro <em>Adixiones<\/em> nos convoca a refletir sobre problemas cruciais da psican\u00e1lise, tanto a partir da elucida\u00e7\u00e3o cl\u00ednica dos sujeitos tomados um a um, como em termos da sociedade globalizada, ancorada num modelo capitalista e seu reflexo no mal-estar contempor\u00e2neo. Com isso, Sinatra nos estimula em <em>Adixiones<\/em> a manter vivo o campo de investiga\u00e7\u00e3o na Rede TyA, a partir de uma reflex\u00e3o sobre o ato anal\u00edtico na contemporaneidade, desse <em>x<\/em>, que marca o desconhecido da singularidade do gozo de cada um e do princ\u00edpio de que nada \u00e9 sem gozo.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 Sinatra, E., <em>Adixiones<\/em>, Buenos Aires: Grama, 2020, p. 19.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003 Optou-se por n\u00e3o traduzir a palavra <em>Adixiones<\/em> ao longo da resenha, mantendo a escrita de Sinatra.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u2003 Lacan, J. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise (1953). In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 322.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u2003 Sinatra, E., <em>op. cit<\/em>., p. 96.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u2003 Miller, J.-A. A teoria do parceiro. Texto publicado neste n\u00famero de Pharmakon digital. Cf. p. 44.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>\u2003 Rede de Toxicomania e Alcoolismo do Campo Freudiano desde 1992, impulsionada por Judith Miller em reuni\u00e3o informal em Caracas.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>\u2003 Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 17, <em>O Avesso da Psican\u00e1lise<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, p. 68.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>\u2003 Sinatra, E., <em>op. cit.<\/em>, p. 158.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u2003 <em>Ibid<\/em>., p. 158.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>\u2003 <em>Ibid<\/em>., p. 158.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>\u2003 <em>Ibid<\/em>., p. 98.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>\u2003 Na mitologia grega, ap\u00f3s a morte de D\u00e1nao suas filhas foram condenadas a encher com \u00e1gua um tonel esburacado, um trabalho infinito de encher para esvaziar.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>\u2003 Brodsky, G. <em>La locura nuestra de cada dia<\/em>. Caracas: Editorial Pomaire, 2012. p. 71.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>\u2003 Sinatra, E., <em>op. cit<\/em>., p. 21.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>\u2003 <em>Ibid<\/em>., p. 94.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre Adixiones de Ernesto Sinatra Giovanna Quaglia (Bras\u00edlia, Brasil) \u201cVivo drogada, mas n\u00e3o consumo, sou assim, n\u00e3o posso parar nunca&#8230;\u201d[1]. \u00c9 com essa frase que Sinatra nos introduz ao seu livro Adixiones[2], com um x. 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