Droga, ruptura fálica e psicose ordinária

Droga, ruptura fálica e psicose ordinária

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Drug, phallic rupture and ordinary psychosis

 Jésus Santiago (Belo Horizonte, Brasil)
Psicanalista, Analista da Escola (AE) e Analista Membro da Escola (AME) da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
Psychoanalyst. Analyst of the School (AE), Analyst Member of the School (AME), of the Brazilian School of Psychoanalysis (EBP) and the World Association of Psychoanalysis (WAP)

Resumo: O texto propõe tomar a psicose ordinária como uma categoria epistêmica que concerne à maneira atual de reconhecer a presença da ruptura fálica na prática toxicomaníaca da droga.
Palavras chave: ruptura fálica, psicose ordinária, toxicomania.
Abstract: The text proposes to take ordinary psychosis as an epistemic category which concerns the manner we recognize, nowadays, the presence of the phallic break in drug addicts’ practice.
Keywords: phallic break, ordinary psychosis, drug addiction

A toxicomania, na atualidade, dissemina-se, prolifera e transforma-se em adição. Ao assumir a roupagem da drogadição, por via de consequência, torna-se, emblemática do que vem a ser o sintoma em nossa época. O fenômeno toxicomaníaco típico do século passado, em que se destacava a dependência de certa substância, massifica-se, cada vez mais, à medida que seus objetos se multiplicam. Se, antes, a dependência definia-se pela ação de determinada substância, nas chamadas novas adições, tal substância não se faz necessariamente presente. Objetos de consumo, amor, pornografia, videogames, fast-food e outros são suscetíveis de dar lugar a condutas aditivas diversas. Os significantes “adicto”, “drogadição” e “fissura” impõem-se no discurso corrente, indicando que não se trata mais de dependência de uma droga ilegal, mas da força da banalização das adições. Acredita-se, assim, que todo objeto pode se tornar adicto, visto que solicita a pulsão, tendo o poder de induzir à repetição de um ato que vai modificar a relação do sujeito com os prazeres do corpo.

Empuxo às adições

Essa espiral aditiva própria do mundo contemporâneo deve, contudo, ser considerada uma tendência decorrente da promoção do gozo pelo mercado, que se opera às expensas de ideais, de figuras paternas e de toda forma de autoridade do mestre moderno. Desde os anos 1970, Lacan enuncia que o contemporâneo se caracteriza pela “ascensão ao zênite social do objeto dito pequeno (a)”, inerente à lógica capitalista, que gera uma “produção extensiva, portanto insaciável, do mais-gozar”(LACAN,2003,411). O fenômeno da drogadição revela-se, assim, consequência de uma transformação fundamental das sociedades atuais. Ou melhor, se o discurso do mestre impunha ao sujeito reprimir o gozo, renunciar a ele ou inibi-lo – tese de Freud em Mal-estar da civilização –, a atualidade do discurso capitalista e, associada a ele, a prática analítica, ao procurar responder ao mal-estar vigente, levam ao que Miller nomeou “uma liberação do gozo” (MILLER, 2005, p.13). A ciência, de mãos dadas com o capitalismo, sempre portadora de objetos recém-criados e renovados que povoam o mundo, contribui, de maneira decisiva, para essa configuração atual das novas adições.

Lacan qualifica os produtos da indústria do mais-gozar “en toc” − ou seja, objetos sem valor, descartáveis, ainda que sejam “feitos para causar o desejo, pois é a ciência que os governa (LACAN, 1992). Constata-se, então, que o mercado gera, a todo instante, objetos que, tão logo adquiridos, já devem ser substituídos por outros mais eficazes e atraentes. Por isso, pode-se caracterizar esse modo de gozo, que se depreende da aliança da ciência com o capitalismo, como “precário, visto que ele se situa a partir do mais-gozar” ( LACAN, 2003, p.533), que apenas se enuncia em torno de gadgets descartáveis. Diferentemente de um gozo vulnerável à incidência das leis da palavra, o mais-gozar particular das adições é, antes de tudo, efeito da produção discursiva do capitalismo, efeito de uma falta a gozar [manque-à-jouir], que, forçosamente, exige ser suprida.

Em última instância, o que caracteriza a apreensão do capitalismo como discurso é a Verwerfung − rechaço da castração em face de todos os campos do simbólico. Para Lacan, disso advém que toda ordem de discurso aparentada ao capitalismo tende a jogar para escanteio o que se mostra antípoda dessa dimensão precária do gozo − as coisas do amor e do desejo (LACAN, 2011, p.88). Fica evidente que a falta do gozo permeável à palavra incide sobre as “coisas do amor” e, mais ainda, que essa falta não se inscreve como perda que mobiliza o desejo, subentendido na fantasia. Exatamente no ponto da exigência em suprir essa falta de gozo, próprio ao corpo e poroso à palavra, é que intervém o objeto droga, o que não acontece sem suscitar angústia. A toxicomania é, portanto, sintoma dessa Verwerfung generalizada da castração, contrapartida inerente ao discurso capitalista, que, sob a forma de um imperativo – Goza! –, favorece o curto-circuito diante do que, na economia libidinal, emerge como referente desse gozo permeável à palavra − o amor e o desejo.

Do ponto de vista da precariedade própria a certos modos de gozo, esse empuxo às adições, fruto da contemporaneidade do discurso capitalista, acarreta consequências que vão muito além do alarde que faz o senso comum em torno de supostos hedonismo e felicidade. Ao contrário, a atualização desse mais-gozar particular que culmina em excessos de adições não cessa de produzir efeitos, que, por sua vez, reforçam uma tendência civilizatória à pulsão de morte. Nos rastros dessa tendência, pode-se ressaltar o caráter emblemático da toxicomania pelo fato de que se trata de um novo sintoma, que se tece no horizonte autista e mortífero do gozo ( LAURENT, 2008, p.15) . É preciso reconhecer que esse novo sintoma apenas pode ser tratado, clinicamente falando, à luz da reviravolta na leitura do ensino de Lacan efetuada por Miller, mediante uma concepção inovadora do “parceiro-sintoma” (MILLER, 2008, p.329).

Essa abordagem clínica caracteriza-se como um suplemento essencial, necessário à prática analítica, e responde à insuficiência do que se institui, desde os anos 1950, como função do Outro e, consequentemente, da presenca ou ausência do significante do Nome do Pai nas estruturas clínicas freudianas clássicas. Sabe-se que tanto a histeria e a neurose obsessiva quanto as psicoses são concebidas pela relação do sujeito com o Outro, tomado como lugar do significante e pelo papel que nele desempenha o significante do Nome do Pai. Com a teoria do “parceiro-sintoma”, o Outro deixa de ser apenas lugar do significante e passa a se representar pelo corpo, definindo-se, assim, o saber como meio de gozo ( LACAN, 1992, p.74).

Desordem no sentimento íntimo de vida

No que concerne a tomar o saber como meio de gozo, deve-se considerar, observa Miller, que não há gozo do corpo senão pelo significante e que, ao mesmo tempo, há gozo do significante, porque a significância está enraizada no gozo do corpo (MILLER, 2008, p.398). Sem dúvida alguma, para se poder ter acesso ao funcionamento desses novos sintomas – toxicomania, bulimia, anorexia e outros –, impõe-se admitir uma conexão estreita entre o gozo do corpo e o gozo do significante. Em outros termos, é pela presença decisiva do gozo do corpo que se fabricam novos sintomas, sabendo-se que não há, para o ser falante, gozo anterior ao significante. Importa salientar que, sob a ótica da psicanálise, o tratamento do corpo em que se manifesta a relação desregrada com a droga faz-se com um corpo que fala por meio do sintoma.

Esse destaque conferido ao corpo não implica, no entanto, que se trate o corpo que goza do toxicômano diretamente pelo corpo. Com efeito, considera-se o desregramento na relação com a droga, depositária do parceiro-Outro, ainda que a função significante, neste último, esteja preferencialmente a serviço do gozo. Por essa razão, nas referidas novas formas de sintoma, pelo fato de que o significante é meio de gozo, o corpo de que se trata será sempre o corpo falante. Isso acarreta a complexificação e a conversão de perspectiva do que se constitui fundamento da elaboração psicanalítica das estruturas clínicas das neuroses e das psicoses, cujo ápice é a emergência, como se verá mais adiante, das chamadas psicoses ordinárias. Vale dizer que a inscrição do Outro nos novos sintomas não segue à risca a separação estanque entre o recalque, próprio ao âmbito das neuroses, e a forclusão, específica ao domínio das psicoses. O enfoque que privilegia a presença da simbolização do Nome do Pai em um desses campos e sua ausência no outro não é suficiente para dar conta do fenômeno da toxicomania. A hipótese clínica que se propõe é a de que tal simbolização pode ocorrer, ainda que seus efeitos sejam incapazes de agir sobre a “desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida do sujeito( LACAN, 1998, p.565). Que, pois, será capaz de atuar sobre essa desordem no sentimento de vida do sujeito? No caso do toxicômano, certamente, a droga revela-se solução para tanto.

Evoca-se essa falha no sentimento de vida, porque ela se evidencia no que se designou, anteriormente, horizonte mortífero e autístico do sintoma toxicomaníaco, cujo modo de gozo deixa transparecer a exclusão do Outro. No fundo, essa exclusão é apenas aparente, pois, se o toxicômano goza a sós do parceiro-droga, isso não quer dizer que ele despreze o acesso ao Outro, ainda que sob a forma de um atalho ou, mesmo, de uma recusa. O uso metódico da droga singulariza, de alguma forma, o que já se disse a propósito do corpo falante, pois é possível mostrar que o corpo do toxicômano se institui, para ele, um Outro. Trata-se de um novo sintoma, na medida em que a toxicomania se constitui exemplar de um gozo que, essencialmente, se produz no corpo do Um, sem que, com isso, o corpo do Outro esteja ausente. Em certo sentido, no contexto clínico, o gozo é sempre autoerótico, sempre autístico, mas, ao mesmo tempo, é aloerótico, visto que também inclui o Outro sob a forma do parceiro-corpo.

Uma parceria cínica com o gozo

Como apreender essa inclusão atípica do Outro na toxicomania, concebida como expressão paradigmática do autismo do gozo e suas desordens no sentimento de vida ? Uma primeira aproximação clínica do problema ocorre no que Miller denomina “gozo cínico” (MILLER, 1989, p.136), gozo que se extrai da postura ética do mestre cínico ao recusar os semblantes ofertados pelo Outro. É, portanto, o mestre cínico antigo que torna possível entrever tal demonstração. Se o cínico não carrega uma imagem racional do mundo, uma concepção providencialista da natureza, isso se explica porque, além de rechaçar toda e qualquer forma de transcendência do Outro, ele é mestre em ironizá-las. Não considera que haja um mistério do mundo a ser atingido, nem que uma divindade tenha criado o universo para o homem. Se o mestre cínico age assim, ele não o faz porque está marcado por falta de coragem ou por acesso de ceticismo, que o leva a renunciar à felicidade.

Ao contrário, contra tudo e contra todos, ele visa à felicidade num mundo em que os reveses infligidos pela Fortuna são moeda corrente, em que o homem é não só vítima das paixões inerentes à sua condição, mas também submetido às agressões de um ambiente que o aprisiona nos chamados valores da civilização. É somente por meio de uma ascese, de uma domesticação capaz de promover a apatia, a serenidade total, que o cínico acredita enfrentar a adversidade, sem, contudo, experimentar o menor transtorno. A inspiração essencial que orienta essa tentativa de encurtar o acesso à apatia implica, portanto, a renúncia às fontes de gozo da civilização, cujo princípio é a autarcia − isto é, o fato de poder ser suficiente por si mesmo −, condição sine qua non da felicidade, tal qual buscava, na antiguidade, esse modo particular de personificação da figura do mestre.

Com o intuito de precisar a tese do curto-circuito infligido aos semblantes ofertados pelo Outro, convém retomar o valor que Diógenes de Laércio confere ao ato masturbatório público e com que ambiciona evitar as mazelas provenientes do convívio com uma parceira sexual. De certa forma, pode-se dizer que o gesto contestador do cínico intervém no ponto exato em que possibilita o encontro com o Outro sexo. Faz-se necessário, contudo, evitar a ideia de que o gozo masturbatório está ao abrigo da relação com o Outro. O cínico, ressalte-se, vive como se o Outro não existisse. Com efeito, o gozo fálico é-lhe suficiente em si mesmo. Assim, o ideal cínico da felicidade vem confirmar o axioma lacaniano de que não há felicidade a não ser a do falo. O cinismo representa uma maneira de se opor aos meios de gozo oferecidos pelo aparelho da civilização, pelo acento conferido ao gozo fálico, concebido como o único que pode liberar a felicidade. Admitir que o falo é uma via para a felicidade é o próprio anátema lançado pelo cínico ao laço social, o que explica, em compensação, o interdito com que as leis da cidade atingem sua forma de gozo direto e imediato.

O atalho cínico da masturbação testemunha os obstáculos que o sexo masculino encontra para gozar do corpo da mulher. A masturbação cínica instaura-se pelo fato de que o homem goza exatamente do gozo do próprio órgão. Pelo gozo fálico, Diógenes tenta responder à discordância fundamental existente, para o homem, entre seu corpo e o gozo. Sua esperança é a de poder atingir o Um da relação sexual pela via fálica. Lembre-se, a propósito, a máxima de Diógenes − “Procuro um homem”, proferida por ele, carregando uma lanterna na mão −, que marca sua ligação ao gozo fálico, já que aferrar-se a ele, impede a superação do obstáculo que o Outro sexo encarna. Em suma, o cínico agarra-se à masturbação, visto não poder gozar do corpo da mulher, pois seu gozo sexual está marcado pelo ideal de constituir o Um da relação sexual.

Droga e ruptura fálica

No mundo contemporâneo, há formas distintas de manifestação desse atalho cínico para o enfretamento do mal-estar do desejo? Se existem, é bem provável que não possuam mais o valor ético que orienta a vida rumo à virtude e à autarcia, mas representem o reflexo das expressões sintomáticas de uma existência que se quer desmunida do Outro. A toxicomania revela-se, portanto, um sintoma, que se exprime pela obtenção compulsiva de um gozo monótono, repetitivo, sem adiamento, voltado a uma satisfação quase sempre fabricada, de forma direta, no circuito fechado entre consumidor e produto.

Esse caráter artificial de fabricação da satisfação, de estilo monótono, obtido no circuito fechado do corpo e da droga, e sobretudo a recusa dos semblantes do Outro remetem à concepção da toxicomania como um tipo clínico que se traduz pela ruptura da função fálica. Por isso, é preciso estabelecer uma distinção essencial entre o apego do cínico à masturbação e o do toxicômano à satisfação tóxica. Se coincidem no modo de inclusão do Outro, se convergem no rechaço dos semblantes da civilização, ambos divergem, contudo, no tocante ao gozo fálico.

O cínico conforma-se com o gozo autoerótico masturbatório e com o valor fálico que se deduz dessa estratégia em obter alguma sintonia entre o gozo e o corpo. Nessa busca compulsiva de uma satisfação artificial e fabricada, o toxicômano dá sinais de que há falhas no dispostivo fálico que favorece o funcionamento possível do gozo necessário ao ser falante. Sob esse ponto de vista, ele não é o cínico, já que reage de modo distinto ao casamento que o ser falante é levado a fazer com o falo. O toxicômano é justamente aquele que não consente com o casamento com o gozo fálico e, portanto, não o concebe como uma saída viável, porque sua fixação reside no real que envolve o órgão peniano. Para o cínico, ao contrário, não importa se o gozo fálico não convém à relação sexual, pois, ainda assim, se mostra apegado a ele. O toxicômano, por sua vez, é um contestador do falo e do gozo que se depreende dele ou, ainda, do gozo de que necessita. Chama a atenção o modo como este se interpõe a esse necessário gozo que, segundo Lacan, apesar de ser um “gozo que não convém – non decet – à relação sexual, não há outro, se houvesse outro” (LACAN, 1982, p.83).

O alcance clínico da visão lacaniana da toxicomania implica considerar a droga um objeto que busca suprir falhas da função fálica, tendo-se em vista seu papel de viabilizar um gozo que mantenha alguma afinidade com a palavra. De outro modo, a presença insistente e compulsiva da droga denota o impasse do sujeito com relação ao gozo que convém, o gozo pulsional que, sob o efeito da incidência da castração, encontra seus objetos, que se constituem Ersatz, pois velam e, ao mesmo tempo, desvelam a castração. O essencial da definição da droga, promovida por Lacan em 1975, é a tese de que sua prática metódica exprime as dificuldades que o toxicômano encontra em ser fiel ao casamento, que todo ser falante contrai, um dia, com o parceiro-falo. Tal definição da droga enuncia-se, literalmente, assim:

[…] é porque falei de casamento que falo disso; tudo o que permite escapar a esse casamento é evidentemente benvindo, daí o sucesso da droga, por exemplo; não há nenhuma outra definição da droga senão esta: é o que permite romper o casamento com o faz-xixi [Wiwimacher], ou seja, com o seu pênis.

No fundo, o que se depreende como específico ao ato toxicomaníaco é a ruptura fundamental com o gozo decorrente dessa parceria, necessária para todo sujeito, pois é ela que fomenta o mais-gozar que convém. Observa-se, assim, que essa definição se estrutura com base na consideração de que o casamento do ser falante com o falo, ou, mesmo, do gozo que dele resulta, é rechaçado em nome de sua forte ligação com o gozo de sentido que incide sobre o órgão peniano.

Na clínica, para se manusear tal definição, impõe-se avaliar a droga como um fator de separação do casamento do pênis e não, do falo. Em outras palavras, o toxicômano é um sujeito que permanece casado com o gozo de sentido que gravita em torno do órgão, em razão de ele não ter contraído um laço possível com o falo. É preciso, pois, não confundir o falo com o órgão peniano, bem como, mais ainda, com qualquer representação imaginária ou ideia de que é, naturalmente, um privilégio masculino. Como função, o falo é um operador, um significante do gozo, destinado a designar, parcialmente, os efeitos do gozo sobre o corpo. Trata-se de um significante assemântico, que não significa nada e apenas como encarnação do nada pode operar favoravelmente no momento da inciação sexual, oportunidade em que o sujeito se depara com o mistério do Outro sexo.

Em comentário a O despertar da primavera, Lacan propõe que a iniciação sexual é mais favorável à vida, quando, levantado o véu, revela-se esse nada inerente ao falo.* Concebe-se esse nada em contrapartida ao que irrompe, na adolescência, como índice da viabilização do gozo fálico, que se articula com o saber, com a palavra. Se o toxicômano é marcado pela ruptura fálica que se exprime na sua dificuldade em lidar com o gozo do corpo, isso decorre do fato de que, em função de seu apego ao gozo do sentido em torno do faz-xixi [Wiwimacher], esse nada não tem lugar. A ruptura fálica equivale, assim, ao excesso de sentido que se produz no momento do encontro com o Outro sexo, um excesso pertubador da iniciação sexual, que obstrui quando deveria se apresentar enigmático e sem sentido no gozo sexual.

Aplicação epistêmica da psicose ordinária à toxicomania

Assinale-se, ainda, que a clínica da ruptura fálica presente nos fenômenos decorrentes do uso toxicomaníaco da droga não se deduz diretamente da forclusão do Nome do Pai, mesmo porque, caso assim fosse, se poderia estar diante de fenômenos típicos das psicoses, a saber, o delírio e a alucinação. Pode-se dizer que a ruptura fálica emana da própria lógica de funcionamento do gozo e que, por razões concernentes ao impacto contingente do significante no corpo, é vedado ao sujeito o gozo que convém à inexistência da relação sexual. A tese da ruptura fálica como fator dominante nas toxicomanias exemplifica uma inversão na ordem dos fatores característica da atualidade clínica − ou seja, não se pensa mais o furo na significação fálica apenas como consequência do furo do Nome-do-Pai.

Ao contrário, o Nome-do-Pai torna-se um predicado do modo como o sintoma e a função fálica organizam e ordenam o gozo para o sujeito. Segundo Miller, ele deixa de ser o nome próprio de um elemento particular chamado Nome-do-Pai. É o que se apresenta mediante a pergunta: o sujeito tem o Nome do Pai ou há forclusão deste ? Hoje, o Nome-do-Pai não é mais um nome, mas o fato de ser nomeado, de lhe ser atribuída uma função ou, como afirma Lacan, de ser “nomeado para” (MILLER, 2012, p.413). Em suma, o Nome-do-Pai não é mais um nome-próprio e torna-se, segundo definição da lógica simbólica, um predicado relativo ao furo da significação fálica:

NP (X) ––> X = ruptura fálica

A meu ver, essa formulação aproxima o novo sintoma, característico da toxicomania, do campo das chamadas psicoses ordinárias, no sentido de que a satisfação obtida com a droga, bem como por meio de outras modalidades de um fazer com o corpo – caso, por exemplo, das tatuagens −, pode funcionar como um “substituto substituído” ( MILLER, 2012, p.412). Se o Nome-do-Pai é um substituto do desejo da mãe, pois impõe sua ordem ao gozo desta, a droga pode se revelar um “substituto substituído”. Em outros termos, a droga pode ser um Nome-do-Pai na relação que o sujeito tem com seu corpo. Dizer que essas técnicas de corpo – entre outras, as drogas e as tatuagens − podem ser “substitutos” do Nome do Pai é um maneira de traduzir o que vem a ser esse significante tomado como predicado. O que se mostra ser método de curto-circuito na sexualidade inerente à satisfação tóxica é muito mais, nos termos de Miller, um “fazer-crer compensatório” (MILLER, 2012, p.411) [compensatory-make believe] do Nome-do-Pai, no sentido de que torna possível alguma solução para as desordens do gozo na vida de um toxicômano. Desde essa clínica do “fazer-crer compensatório”, valoriza-se a continuidade entre os territórios da neurose e da psicose, enfatiza-se o que os faz contíguos, dois modos de responder a um mesmo real, pois se trata, sob esse ponto de vista, não de estabelecer fronteiras senão de constatar enodamentos, grampeamentos, desconexões, desatamentos entre fios que estão em continuidade.

Nesse sentido, quando faço referência à psicose ordinária, não pretendo equacionar a querela diagnóstica que, historicamente, se abateu sobre a toxicomania. Como se sabe, tal enfoque clínico já esteve sob os auspícios de estados melancólicos e maníacos, ou de uma psicose renomeada sob a imprecisão do termo “psicopatia”, ou de uma perversão transformada na época − uma perversão moderna −, ou de uma neurose obsessiva atualizada pela releitura da presença, nela, do masoquismo e, principalmente, de estados narcísicos e límitrofes, ou boderlines. Já se tentou, inclusive, fazer da toxicomania uma modalidade própria de discurso. Enfim, não se trata de considerá-la uma categoria clínica objetivável, que elimina o lado enigmático e obscuro que pesa sobre esse tipo de sintoma. Trata-se de tomar a psicose ordinária, como sugere Miller, como uma categoria mais epistêmica que diagnóstica e, portanto, concerne à maneira atual de reconhecer a presença da ruptura fálica na prática toxicomaníaca da droga. Ela interessa ao fazer clínico cotidiano e alimenta a possibilidade de se apreender o sujeito toxicômano em tratamento. Pode-se dizer que a psicose ordinária é o único modo de verificar o fato fundamental da técnica de corpo com a droga, que se aprende a cravar no cerne do sintoma toxicomaníaco; de pôr à prova do real as soluções compensatórias que, em suma, se depreendem da ruptura fálica; de confrontar o real que não cessa de não se escrever em cada caso, que, no fundo, se confunde com a própria estrutura da prática analítica, estrutura que se põe à luz no fenômeno da transferência.

Referências Bibliográficas:
LACAN, J. Radiofonia. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 400- 447
MILLER, J.-A. Uma fantasia. Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, fev 2005, nº 67, p. 13.
LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 93-189.
LACAN, J. Televisão. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 508- 543.
LACAN, J. Estou falando com as paredes. Zahar: Rio de Janeiro, 2011. p. 88.
LAURENT, E. El objeto a como pivote de la experiência analítica. Lo inclasificable de las toxicomanias. Buenos Aires: Grama, 2008, p. 15.
MILLER, J.-A. El partenaire-síntoma [1997-98]. Buenos Aires: Paidós, 2008. p. 329.
LACAN, J. De uma questão preliminar a todo tratamento possível de uma psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 537- 590.
MILLER, J.-A. Clôture. Les toxicomanes et ses thérapeutes – GRETA, Analytica, Paris: Navarin, 1989, p. 136.
LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 81-83.
MILLER, J.-A. Efeito do retorno à psicose ordinária. A psicose ordinária. Belo Horizonte: Scriptum, 2012, p. 413.
Notas
* “Que o véu levantado não mostre nada, eis o princípio da iniciação (nas boas maneiras da sociedade, pelo menos).” (LACAN, J. Prefácio a O despertar da primavera, de Frank Wedekind. Outros escritos, op. cit., p. 558). Para saber mais a esse respeito, ver SANTIAGO, Jésus “O nada e o véu do saber sobre o sexo” (não publicado).
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