Entrevista 3

Entrevista 3

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Pablo Sauce (Salvador, Brasil)
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Coordenador do Núcleo de Pesquisa sobre Toxicomania e Alcoolismo do Instituto de Psicanálise da Bahia (TyA-Ba)
  1. Como você entende a fixação de um sujeito ao objeto droga?

Interessa-me abordar a especificidade da droga a partir do impasse que esta provoca na operação analítica.

A hipótese freudiana da Fixierung – fixação (de gozo) – apoia-se no conceito de libido e supõe o deslocamento: algo que deveria deslocar-se, desenvolver-se, fixar-se ou retornar. O que deveria ser substituído permanece: um modo de satisfação que reproduz uma perda de gozo impossível de recuperar.

Uma fantasia tem a função de colocar – fixar – o objeto perdido no corpo do Outro em um movimento de recuperação desse gozo perdido. Assim, o que mantém um modo de gozo no lugar é o Outro: é a vontade inscrita no Outro (MILLER, 2005, p. 157).

Atualmente há uma grande dificuldade, própria do gozo contemporâneo, de situar o modo de gozo a partir do Outro. Nesse sentido podemos entender as adições contemporâneas como envolvendo certo tipo de sujeito que não alcançou à colocação do objeto a no Outro.

Ao ser excluído da estrutura da lógica do significante, o objeto fica localizado nesse espaço que é nem dentro nem fora. Uma consequência dessa exclusão, no nível do corpo, é que não há nenhum limite para a produção do objeto a como mais-de-gozo. Outra consequência é que o objeto a passa a deambular sozinho, separado dos corpos; porém, disposto a retornar sobre eles a qualquer momento. Desta forma, na toxicomania, o objeto em sua vertente de mais-de-gozo está aderido a um produto da indústria (BROUSSE, 2008, p. 24).

Um dos modos de retorno do objeto a como mais-de-gozo sobre o organismo é o objeto droga. É nesse sentido que entendo a função do objeto droga para um sujeito. Por sua vez, entendê-la como função nos permite operar no campo das toxicomanias: wo Es war, soll Ich werden: lá onde a droga estava, eu, como sujeito, devo advir; a partir da suposição de que a droga usurpou o lugar do sujeito que, no mais íntimo, se encontra no lugar do Outro. A droga materializa este mais-de-gozo. Desse modo, quando um sujeito se encontra (des)orientado pelo discurso tecno-capitalista, os efeitos do encontro contingente com uma droga poderão produzir um acontecimento de gozo inesquecível (MILLER, 2005, p. 190). E, a partir daí, assumir um modo de gozo como uma verdadeira investidura.

  1. Qual é para você a especificidade da toxicomania, em relação à generalização atual das denominadas adições?

O mais além – do princípio do prazer – concerne sempre à ruptura do equilíbrio, que pode começar com as cócegas, e, como disse Lacan, terminar na labareda de gasolina (MILLER, 2005, p. 159).

A partir da hipótese da feminização do mundo e da particularidade do modo de gozo contemporâneo, determinado pela positivação – mostração do gozo que há – e não mais pela sua negativação (SINATRA, 2013, p. 25), podemos nos orientar pelas fórmulas da sexuação.

O lado feminino das fórmulas implica em estar suspenso entre duas vertentes; por uma parte, a do vazio existencial com sua falta de limite: S(Ⱥ) – vertente da labareda; e por outra, a que se dirige ao gozo fálico (Ф), categoria que sustenta o acesso ao todo, à exceção e ao limite – vertente das cócegas:

A título de hipótese, proponho diferenciar a especificidade da toxicomania da generalização das adições a partir da suspensão do fiel da balança, em cada caso, entre essas duas vertentes: no extremo da vertente da labareda S(Ⱥ) colocaria a verdadeira toxicomania, onde a categoria do falo não seria operatória (insubmissão ao serviço sexual) e o objeto droga funcionaria, sem exceção, como condensador de gozo.

Do outro extremo (Ф), na vertente das cócegas, a masturbação como paradigma das adições generalizadas, onde teríamos a submissão ao gozo fálico. No caso das adições generalizadas se trataria de um tipo de gozo – cínico – que não passa pelo corpo do Outro, senão pelo próprio corpo (autoerotismo): há uma recusa a que o gozo do próprio corpo seja metaforizado pelo gozo do corpo do Outro. Por isso equivale ao primeiro tempo da tese freudiana sobre a adição, onde através do ato da masturbação, se opera um curto-circuito que assegura ao sujeito o casamento com o gozo fálico, e que não descarta a inclusão do outro imaginário na fantasia. Trata-se aqui de um gozo fragmentado, sexual.

Na vertente da especificidade da toxicomania, além de não passar pelo Outro, como nas adições generalizadas, também não passa pelo gozo fálico. Temos aqui a tese lacaniana de que a droga permite romper o “casamento com o pequeno pipi”, pois permite a fuga do problema sexual. Salvo na psicose, claro, onde o rompimento é anterior ao encontro com a droga.

Segundo a tese lacaniana sobre a droga (NAPARSTEK, 2005, p. 39), nas adições generalizadas teríamos a inscrição do falo – primeiro tempo -, porém à falta de sua posta em função – segundo tempo -, o gozo ficaria estancado, não se deslocaria. Por sua vez, a especificidade da toxicomania implica a não inscrição do falo – tempo zero – onde o gozo permanece real, como gozo do órgão e faz-se necessário o objeto droga para aparelhá-lo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BROUSSE, M-.H. “Objetos soletrados no corpo”, in Arquivos da Biblioteca, 5, Rio de Janeiro, EBP-Rio, Junho de 2008.
MILLER, J.-A. “A volatilização da Fixierung freudiana” (cap. 11), in Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2005.
MILLER, J.-A. “Modos de gozo” (cap. 11), in Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2005.
NAPARSTEK, F. “La tesis lacaniana sobre la droga” (Clase IV), in Introducción a la clínica con toxicomanías y alcoholismo, Buenos Aires, Grama Ediciones, 2005.
SINATRA, E. “La feminización del mundo” (Cap. II), in L@s nuev@s adict@s: la implosión del género en la feminización del mundo, Buenos Aires, Ed. Tres Haches, 2013.
Pablo Sauce
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