Intoxicações no contexto do desencadeamento da psicose

Intoxicações no contexto do desencadeamento da psicose

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Intoxications in the context of unchainment

Viviane Tinoco Martins (Rio de Janeiro, Brasil)
Psicóloga, Doutora em Teoria Psicanalítica – UFRJ, Pós-doutoranda em Psiquiatria e Saúde Mental – IPUB/UFRJ, Coordenadora Adjunta do PROJAD/IPUB/UFRJ, Supervisora Clínica-Institucional do CAPS-ad III Antonio Carlos Mussum e da UAA Cacilds – Rio de Janeiro – SMS-RJ, Participante do Núcleo de Pesquisa em Toxicomania e Alcoolismo do ICP-RIO.
Psychologist, PhD in Psychoanalytic Theory (UFRJ), Post-doctorate in Psychiatry and Mental Health (IPUB / UFRJ), Deputy Coordinator of PROJAD/IPUB/UFRJ, Clinical-Institutional Supervisor of the CAPS-ad III Antonio Carlos Mussum and of the UAA Cacilds (Rio de Janeiro, SMS-RJ), Participant of the Research Center on Drug Addiction and Alcoholism of ICP-RIO.

Resumo: Este trabalho tem como objetivo localizar as funções da droga no seio do tratamento possível das psicoses, no que tange à dimensão do gozo que incide sobre o real do corpo intoxicado. A conjuntura clássica do desencadeamento dos fenômenos elementares que revelam a estrutura psicótica é problematizada à luz das contribuições acerca da psicose ordinária em articulação com o consumo de drogas na clínica contemporânea.
Palavras-chave: psicoses, drogas, intoxicações, desencadeamento, gozo, significante.
Abstract: This paper has the goal of locating the functions that the drugs exert in the treatment of possible psychoses, towards what tangles the jouissance dimension that inflicts on the real of the intoxicated body. The classic context of unchainment of elementary phenomena reveal how the psychotic structure is questioned, in light of the contributions regarding ordinary psychoses in relation to the use of drugs in contemporary clinic.
Key-words: psychoses, drugs, intoxication, unchainment, jouissance, significant

Tomando como ponto de partida a obra freudiana, temos como objetivo articular as intoxicações às manifestações clínicas da estrutura psicótica. Freud, ao abordar as técnicas para evitar o sofrimento psíquico e o mal-estar na cultura, inclui a intoxicação. Na juventude a fuga para a doença neurótica constitui-se como uma “última técnica da vida” (Freud, 1930[1929]/1996:92). Diante do fracasso na busca pela felicidade, o sujeito pode vislumbrar duas possibilidades de “consolo” (idem): a escolha da psicose ou a intoxicação crônica. Aqui, é digno de nota, o fato de Freud colocar num mesmo plano, a intoxicação e a psicose e ressaltar que o sujeito pode escolher uma ou outra. Na atualidade, como reler tal constatação de Freud, considerando o consumo excessivo de drogas realizado por sujeitos neuróticos e psicóticos?

A articulação entre psicanálise e psicose é tributária das contribuições de Lacan, que, em seu retorno a Freud, inaugurou um tratamento possível para sujeitos psicóticos, incluindo o manejo dos desencadeamentos e das tentativas de cura.

Em seu primeiro ensino, Lacan se dedicou ao seguinte objetivo: “restaurar o acesso à experiência que Freud descobriu” (Lacan, 1957-8/1998, p. 590) para com isso permitir uma revisão do tratamento analítico de modo a incluir a dinâmica psíquica das psicoses. Tal revisão da técnica psicanalítica foi fundamental, “pois usar a técnica que ele [Freud] instituiu fora da experiência a que ela se aplica é tão estúpido quanto esfalfar-se nos remos quando o barco está encalhado na areia” (idem). Assim, Lacan instrumentalizou os analistas para não recuarem diante da psicose. Com isso, abriu-se a possibilidade de oferecer as balizas para uma direção psicanalítica ao tratamento de psicóticos.

A experiência da intoxicação se constitui como uma modalidade de gozo que incide sobre o corpo. É importante destacar que na psicose, a droga, de acordo com o caso único, pode operar pela via da moderação do gozo invasivo que faz retorno no real. Por outro lado, também é possível reconhecer que, para alguns sujeitos, a intoxicação promove a irrupção de um gozo ilimitado, que tem como efeito a manifestação de fenômenos elementares próprios do desencadeamento da psicose (Martins, 2009).

A droga e a cadeia significante

Lacan menciona um caso policial publicado em um jornal francês – France-Soir – que encontrou “largado” em um trem e lhe caiu nas mãos enquanto viajava. Tratava-se de uma “bela francesa” chamada Claudine que foi assassinada por “um americano que fugiu correndo” e teria sido internado em uma casa de saúde. Destaca o fato de que o assassino teria usado LSD, “parece que ele estava chapado no momento em que a coisa aconteceu” (Lacan, 1967-8/2006, p. 54).

Apesar de mencionar o uso da droga, Lacan ressalta o papel da articulação significante em detrimento dos efeitos da substância. “Há o LSD, mas enfim, mesmo assim, o LSD não baratina completamente as cadeias significantes. Esperemos isso, em todo caso, para que encontremos algo aceitável” (Lacan, 1967-8/2006, p. 55). Lacan é claro ao fazer crítica àqueles psicanalistas que identificariam uma causa para o assassinato decorrente de “algum lugar no nível da cadeia significante”, ao invés de apenas constatar o fato e questiona: “por que não se diria pura e simplesmente que ele arrebentou a menina, e pronto?” (idem). O que para nós é valioso é o fato de Lacan não tomar a intoxicação como um motivo do ato criminoso do sujeito e valorizar o encadeamento significante que não se compromete com o uso de drogas.

O papel secundário da narcose na cena do desencadeamento

Em sua tese de psiquiatria, Lacan recorreu ao estudo das psicoses exógenas ou tóxicas. Neste estudo, identificou as “relações clínicas e patogênicas da psicose paranóica com as psicoses de intoxicação e de auto-intoxicação” (Lacan, 1932/1987, p. 115). Em poucas páginas sobre o assunto, ressaltou a estranheza da etiologia tóxica das paranóias. Assim, “é preciso, com efeito, ver na própria intoxicação não uma causa primeira, mas freqüentemente um sintoma de distúrbios psíquicos” (Lacan, 1932/1987, p. 117). Lacan é ainda mais preciso, quando destaca que a intoxicação constitui “uma tentativa do sujeito para compensar um desequilíbrio psíquico” (idem) e conclui que “as fraquezas psíquicas do terreno vão ser reencontradas nas conseqüências da intoxicação” (ibidem).

Lacan, ao tecer comentários acerca das estratégias utilizadas nos interrogatórios dos criminosos, tais como a tortura e a narcose, ressalta suas inadequações e também seus limites, na medida em que não induz o sujeito a dizer aquilo que ele não sabe. No que se refere à narcose, Lacan é ainda mais enfático e aponta os seus perigos. “Os vaticínios que ela provoca, desnorteantes para o investigador, são perigosos para o sujeito, que, por menos que participe de uma estrutura psicótica, pode encontrar nela o “momento fecundo” de um delírio” (Lacan, 1950/1998, p. 146)

Considerações finais

Ainda que o recurso à droga possa cumprir a função de compensar o desequilíbrio psíquico característico de uma psicose, tal função porta precariedades e pode participar da conjuntura do desencadeamento. Alguns sujeitos são bem sucedidos nesta função compensatória, outros claudicam, na medida em que a intoxicação produz uma experiência excessiva de gozo.

O uso metódico de drogas, dada a sua complexidade, dificulta o estabelecimento do diagnóstico estrutural, na medida em que os fenômenos clínicos relativos à intoxicação e à abstinência se assemelham a uma sintomatologia própria da psicose. O obscurecimento do diagnóstico, não é sem impasses na direção do tratamento. Assim, é preciosa a orientação de Miller (2010) acerca da psicose ordinária, uma “categoria lacaniana”, que permite superar uma clínica de “caráter basicamente binário”, no que tange ao diagnóstico diferencial entre neurose e psicose, instituindo um norte para a condução do tratamento na variedade de tipos clínicos na contemporaneidade.

Referências Bibliográficas:
FREUD, S. (1930[1929]/1996). “O Mal-Estar na Civilização” In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XXI). Rio de Janeiro, Imago.
LACAN, J. (1932/1987). Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade, seguido de Primeiros Escritos sobre a paranóia. Rio de Janeiro, Forense-Universitária.
LACAN, J. (1950/1998). “Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia”. In: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.
LACAN, J. (1957-8/1998). “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose”. In: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.
LACAN, J. (1967-8/2006). Meu ensino. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.
MARTINS, V. T. (2009). “O recurso à droga nas psicoses: entre objeto e significante”. Tese de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ (Inédita).
MILLER, J. A. (2010). “Efeito do retorno à psicose ordinária”. In: Opção Lacaniana online nova série. Ano 1; Número 3, Novembro de 2010.
Viviane Tinoco Martins
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